O panorama das cidades do século XXI: O problema da Insustentabilidade

Texto adaptado da Tese de Mestrado “Arquitetura e o Espaço Agrícola na Cidade. Sustentabilidade Participada: Um Projeto para o Vale de Carnide”

Por Ana Carolina Cardoso, Arquiteta Supervisora da Vertix Arquitetura, Engenharia e Construções.

Ana Carolina Cardoso

 

Segundo o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), publicado em 2012, quase 80% da população da América Latina vive em cidades, prevendo-se que chegará a 90% até 2020, sendo São Paulo o centro urbano mais povoado do Brasil e de todo o hemisfério sul e uma das 20 megacidades do mundo.

Refletindo sobre este cenário, mesmo acreditando que as cidades apresentam um enorme potencial para melhorar a qualidade de vida das pessoas, a inadequada gestão ecológica, social, econômica e territorial tem transformado as oportunidades em desastres.

 vistas cidade

A primeira explosão demográfica da população urbana ocorrida com a industrialização e o consequente êxodo rural para o meio urbano, transformou profundamente as cidades e a vida urbana. O crescimento exponencial da população urbana e a consequente pressão urbanística exercida sobre as cidades, originam graves desequilíbrios na relação do construído com as componentes naturais, agravados pela falta de um planeamento territorial sustentado e a incapacidade de controlar as modificações da paisagem, em termos de qualidade ambiental e cultural. (Magalhães, in Cardoso, 2012:11)

 evoluçao porcentual da população urbana 1950-2050

Este desequilíbrio, deriva da invasão e degradação dos ecossistemas naturais, da ocupação dos solos produtivos, do aumento das superfícies impermeáveis e da consequente perda da biodiversidade. Paralelamente, as cidades são o centro do consumo de recursos, bens e serviços que importam do exterior para satisfazerem as necessidades da população urbana e consequentemente, tornaram-se as maiores produtoras de resíduos e poluição, sendo causadoras pelo menos de três quartos da poluição global. (Rogers, in Cardoso, 2012:11) Todas estas consequências traduzem-se numa drástica pegada ecológica, na diminuição da qualidade de vida, com implicações diretas nas condições de saúde da população, (CIAUS, in Cardoso, 2012:11) prevalecendo um modelo de desenvolvimento que sobrepõe as necessidades de melhoria das condições de vida dos cidadãos (Pinto, in Cardoso, 2012:11), com graves implicações territoriais, ambientais e sociais que rapidamente se fizeram sentir.

Face a esta insustentabilidade das cidades atuais, e à incapacidade do atual modelo de desenvolvimento resolver os problemas territoriais, sociais e ambientais, é fundamental pensar num modelo alternativo que apresente ideias globais de interesse coletivo e de consciência global. Desta forma, a gestão sustentável do ambiente urbano apresenta-se como um dos maiores desafios do futuro para obter cidades mais sustentáveis e coerentes. (CEU, n Cardoso, 2012:12)

O conceito de desenvolvimento sustentável foi criado para dar “resposta às necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de assegurarem as suas próprias necessidades,[1] Contudo, embora se tenha dedicado muita atenção à definição dos princípios deste conceito, muito pouco se fez para o introduzir nos valores da sociedade. (Edwards, in Cardoso, 2012:44)

Neste sentido, enquanto arquitetos e urbanistas, é fundamental entendermos a urgência da concepção e planeamento do ambiente construído de um modo mais sustentável, numa relação simbiótica entre ambiente construído, homem e natureza.

[1] Our Common Future, From One Earth to One World, an Overview by the World Commission on Environment. Oxford: University Press, 1987

 

BIBLIOGRAFIA

ALVES, Fernando (2003) Avaliação da Qualidade do Espaço Público Urbano. Proposta Metodológica. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e Tecnologia

CONSELHO EUROPEU DE URBANISTAS (CEU), (2003), A Nova Carta de Atenas. Lisboa: AUP, DGOTDU.

EDWARDS, Brian (2008), O guia básico para a sustentabilidade, Barcelona: Editorial Gustavo Gili, SL.

MAGALHÃES, Manuela (2001), Arquitectura Paisagista – Morfologia e Complexidade. Lisboa: Editorial Estampa.

PINTO, Rute (2007) Hortas Urbanas: Espaços para o Desenvolvimento Sustentável de Braga. Tese de Mestrado em Engenharia Municipal com especialização em Planeamento Urbanístico. Braga: Escola de Engenharia da Universidade do Minho

ROGERS, Richard e GUMUCHDJIAN, Philip (2008) Cidades para um pequeno planeta. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, SL.

Our Common Future, From One Earth to One World, an Overview by the World Commission on Environment. Oxford: University Press, 1987